Um cantinho, um violão

Outro desenho que realizei no período em que morei na Alemanha, entre 1985 e 1986.

Naquela época eu já sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria subir aos palcos — até porque, antes disso, no comecinho dos anos 80, já havia registrado uma canção minha em estúdio e a defendido num festival de música. Assim, em processo de aperfeiçoamento, eu tocava bastante violão buscando aprimorar sobretudo o canto. Em minha germânica morada, era esse o lugar de tocar e cantar, exercitando o repertório do momento e gravando tudo em fita cassete para depois melhor analisar meu desempenho.

Embora inacabada — pois faltou arrematar a paisagem da rua com as casas em enxaimel e os apetrechos no balcão da janela, onde sei que havia uma lata de tabaco mentolado, uma pequena xícara e um potezinho de plástico azulado, com tampa —, essa imagem guarda bem o que me ficou na memória daquele recanto em que eu trabalhava, sonhava e escrevia as cartas que enviava pro Brasil.

Lembro-me agora, por exemplo, de momentos ali à luz de vela. Lembro da grande almofada rosa, cujo recheio não dava conta de preenchê-la plenamente e, por isso mesmo, estava sempre amarfanhada, se adaptando de forma imprecisa mas fácil na pequena cadeira e deixando o assento mais confortável; da cortina verde (que eu havia interpretado no ano anterior num autorretrato já compartilhado aqui no blog) se avultando sobre a parede branca e dando ao ambiente um ar de maior aconchego; da sólida cadeira azul piscina que, por não ter braços, se mostrava perfeita para a prática do meu instrumento; da mesa vermelha que, a exemplo da ilustração, permanece incompleta no meu pensamento e de outras pequenas coisas que, já agora, me vêm apenas vagamente à ideia. Me pergunto, por exemplo, que livro seria aquele que jaz “flutuando” sobre a estante amarela apenas sugerida por uma face lateral.

Nessa representação, gosto particularmente de um certo contraste entre a fixidez de alguns elementos e a sutil insinuação de movimento pelas dobras da almofada e da cortina, numa linha ascendente que, partindo do braço do violão, corta a cena trazendo a ela um pouco mais de vida e simulando um efeito de deslocamento ou animação — como, de outra forma, o próprio som da música pode causar ao se espalhar em um recinto. Tudo, é claro, são sempre interpretações.

Diviso muitos matizes e reminiscências naquele cantinho…

Apesar da simplicidade, por seu caráter de desenho de observação, é considerável o tanto que essa pequena imagem evoca daquilo que está ainda comigo preservado na memória: da conformação do espaço em si e de seus objetos, da percepção daquele lugar, da conjuntura de vida que o acompanhava, da geografia ao redor e dos meus sentimentos de então. Embora ambígua, minha impressão é de que há ali uma “enigmática precisão”. E eis que a própria figura acaba por tomar o lugar do vivido, passando ela própria a contar a história e a representar suas reminiscências.

Ainda, ao mesmo tempo em que considero que eles possivelmente tenham sido sempre assim, volto a reparar em como são coloridos os meus trabalhos pictóricos daqueles dias, quando, por contraste, o céu se conservava acinzentado e a minha pele insistia em sua palidez. E também percebo o comentário de mim mesmo em meus insistentes riscados, nos vigorosos traços que se consumam subitamente e que contêm um sabor um tanto “vangoguiano”, não apenas pelas cores vivas, mas especialmente pela composição inteiramente constituída de linhas e pelo dinamismo e melancolia somados, que nela adivinho. Algo que seguramente sempre fez e sempre fará parte de mim — até o meu fim.

10 comentários em “<strong>Um cantinho, um violão</strong>”

  1. Marta Colombo

    Que coisa linda, Dudu: desenho, texto e pessoa incrível que és! Sou fã do teu trabalho! Parabéns sempre!

    1. Marta querida, obrigado! Fico radiante que, com toda a tua sensibilidade, tenhas essa percepção sobre mim. Tenho a mesma de ti. Beijo grande.

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