Luz e Paixão, pinturas de Roberto Fronckowiak, foi o título que escolhi para a primeira mostra póstuma de obras desse artista e também sua primeira individual. A exposição permaneceu aberta para visitação no período de 20 de março a 23 de maio de 2025, de segundas a sextas, das 09h às 17h, no Museu de Arte do Paço (MAPA), em Porto Alegre. Como curador, escrevi o seguinte texto de apresentação:
Paixão significa sofrimento, martírio. Mas também amor intenso, entusiasmo. E pode igualmente se referir à vida, emoção, calor que um artista transmite através de sua obra. Ambígua, essa palavra traduz em boa medida o caráter de beleza, transcendência e inexorabilidade da existência que Roberto Fronckowiak parece sustentar em seu trabalho. Já a Luz — que expressa aspectos e elementos fundamentais da pintura, além de conter sentidos vários como brilho, visão, inspiração e saber —, é algo que ele visivelmente perseguia em suas pinturas e que nelas se manifesta integralmente.
Nascido em Rio Grande no ano de 1942 e falecido em Porto Alegre em 2019, Roberto Fronckowiak foi sem dúvida um dos grandes talentos das artes visuais surgidos no Rio Grande do Sul na segunda metade do século vinte. Autodidata, iniciou na pintura em 1958. A partir de 1960, residindo na capital, dedica-se também à modelagem em acrílico, cerâmica, fotografia, serigrafia, marchetaria e ao desenho de cenários para televisão, teatro e cinema.
Apesar da notável dedicação ao ofício, Roberto não chegou a promover sua produção de maneira efetiva em galerias, desenvolvendo sua atividade à margem de instâncias de legitimação oficiais. Porém, mesmo sem esforçar-se por espalhar seu nome, ele vendia suas obras em feiras — como a do antigo Largo da Epatur e a do Brique da Redenção, em Porto Alegre, e na FEARTE de Gramado —, ou mesmo em casa, onde o procuravam com frequência com o propósito de adquiri-las. Foi concebendo trabalhos de significativa qualidade, de estilo singular e cobiçados por pessoas que o admiravam que ele conquistou certa proeminência, seu status de artista visual, sua assinatura.
Somando à força de sua eloquência pictórica um dom natural, o estudo e o aprimoramento contínuos, a compreensão dos atributos plásticos e a habilidade no manejo dos materiais, Fronckowiak logrou constituir uma obra capaz de seduzir quem a contempla. Êxtase, surpresa, inquietação ou curiosidade são algumas das emoções que ela pode despertar. Porém, muito dificilmente suscitará a indiferença ou o tédio. Em suas imagens, que movem e comovem, há um vigor que provoca os sentidos. Nas paisagens de cores vivas e luzes delirantes, por mais que seus traços e pinceladas representem inequivocamente os objetos e os temas escolhidos, o resultado da execução não corresponde a um realismo cabal, mas sim a um universo idealizado, de gosto expressionista. É a ebulição de uma arte, por vezes quase abstrata, que se dá em jorro.
Para alcançar os efeitos que desejava, ele se servia de técnicas diversas, utilizando seguidamente, na elaboração de uma mesma pintura, as cerdas e o cabo do pincel, além da espátula. Também os suportes e os tamanhos eram variados — as cenas em telas pequeninas, por exemplo, são um deleite e um convite à contemplação. E, embora ele tenha privilegiado a paisagem como tema (sobretudo marinhas e cenas interioranas), uma série de destaque é a das naturezas-mortas com frutas e legumes, em que folhas de jornais servem como papel de embrulho. Nelas, as manchetes — que sutilmente trazem notícias que dão conta de seu tempo e seu lugar, situando-o como indivíduo — dividem a cena com as compras da feira, revelando uma visão crítica da condição humana e seu envolvimento tanto com os rumos do mundo, quanto com as coisas triviais.
Artífice intenso e profícuo, a quase obliteração de sua herança artística da história da arte do Rio Grande do Sul é algo a ser reparado. A presente exposição — primeira individual a reunir seus trabalhos — tem como objetivo começar a preencher essa lacuna, ao mesmo tempo em que comemora a incorporação de seis de suas obras ao acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli, doadas por Kundry Lyra Klippel, sua última companheira.
Neste espaço, a partir de agora, torna-se possível conhecer e apreciar um pouco da arte de Roberto Fronckowiak, fecundo criador que dedicou sua vida a concebê-la.
Não pode haver doação maior por parte de um artista.
Dudu Sperb | curador | março de 2025



Apreciada por centenas de pessoas durante os dois meses em que permaneceu em cartaz, ajudando significativamente a reintroduzir a obra desse artista esquecido, destacando seu trabalho e difundindo seu nome junto ao público e no meio das Artes Visuais de nossa cidade, a exibição teve como resultado prático a aquisição de mais duas de suas pinturas pelo Museu de Arte do Rio Grande do Sul, o MARGS, além das cinco ou seis que já faziam parte de seu acervo.
A ideia desse resgate começou a povoar meus pensamentos há alguns anos, quando minha amiga Kundry Lyra Klippel, viúva de Roberto, me presenteou com duas pequenas telas dele, despertando-me o interesse em conhecer melhor sua pintura. Por essa época ele já havia falecido (eu o encontrei pessoalmente poucas vezes, apenas no final de sua vida, período em que a enfermidade já não lhe permitia muitas trocas). Surpreso com a qualidade do que ele havia produzido e pelo quase apagamento de sua memória como artista, propus a ela de se oferecer algumas de suas pinturas para museus. A partir das doações que ela promoveu, de várias pinturas deixadas pelo marido, para instituições como a Pinacoteca Aldo Locatelli e o MARGS (afora o investimento em restauros, emoldurações, materiais gráficos, etc.), esse projeto começou a tomar forma.
Além dela, inúmeras outras pessoas participaram de forma essencial desse processo.
Flávio Krawczik, Diretor do Acervo Artístico da Coordenação de Artes Visuais da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de Porto Alegre, reconhecendo valor naquele trabalho — à época, praticamente desconhecido —, foi quem levou à Coordenação de Artes Visuais a proposta de doação de obras de Fronckowiak. A partir de então, seis de suas pinturas passassem a integrar o acervo da Pinacoteca Aldo Locatelli. Foi também ele quem propôs formalmente a exposição na Sala da Fonte, no Paço Municipal, e quem fez o convite para que eu fosse o seu curador.
Igualmente importantes foram as pessoas que emprestaram obras de seus acervos particulares, entre familiares, conhecidas e amigas — cujos nomes indico abaixo, junto às imagens — e também o grupo de trabalho do Museu do Paço, sobretudo o Élcio, o Luiz e a Maria. A realização da exposição, com a complexidade que envolve uma ação como essa, só foi possível por conta dessa dedicação e amor conjuntos. Foi esse esforço e desejo coletivo que proporcionou as condições para que se reunissem, pela primeira vez após a morte do artista, quarenta pinturas e um grafite.
Seguem abaixo imagens das obras que fizeram parte desse evento memorável, para que quem não pode ver ao vivo tenha a oportunidade de pelo menos conhecer um pouco desse patrimônio, e para que quem esteve na exposição possa relembrar esse acontecimento significativo, que trouxe de volta à cena o trabalho de um criador talentoso, profícuo e apaixonado como foi Roberto Fronckowiak.

O Araçatuba – 1978 / óleo sobre eucatex / acervo Pinacoteca Aldo Locatelli –
doação Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Pinacoteca Aldo Locatelli –
doação Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Ângela Fronckowiak

sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Pinacoteca Aldo Locatelli –
doação Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Maria Beatriz Borges

à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Maria Beatriz Borges
à direita: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Edi Cogo

à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Edi Cogo
à direita: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Ângela Fronckowiak

sem título – 1973 / óleo sobre eucatex / acervo Pinacoteca Aldo Locatelli –
doação Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Maria Beatriz Borges

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Simone Cogo Fronckowiak

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Ângela Fronckowiak

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi

à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Dudu Sperb e Lígia Petrucci
à direita: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Dudu Sperb e Lígia Petrucci

à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi
à direita: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marco Fronckowiak

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi

à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi
à direita: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Pinacoteca Aldo Locatelli –
doação Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Simone Cogo Fronckowiak

no centro, acima: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Eliete Pereira Corrêa
abaixo à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Pinacoteca Aldo Locatelli –
doação Kundry Lyra Klippel
abaixo à direita: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Ângela Fronckowiak

à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Edi Cogo
à direita: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Kundry Lyra Klippel

sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Dudu Sperb e Lígia Petrucci

acima à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre tela / acervo Marco Fronckowiak
abaixo à esquerda: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Marcelo Fronckowiak e Maura Focesi
à direita: sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Ângela Fronckowiak

sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Ângela Fronckowiak

sem título – sem data / óleo sobre eucatex / acervo Dudu Sperb e Lígia Petrucci

sem título – sem data / acrílica sobre tela / acervo MARGS – doação Kundry Lyra Klippel

Autorretrato – 1984 / grafite sobre papel /acervo Kundry Lyra Klippel


Estive na exposição! Tudo muito lindo! Parabéns pelo resgate e pela a curadoria ! A arte nos salva!!
obrigado, Solange! 💓🙏🏾
Dudu querido. Já tinha te parabenizado pela curadoria da exposição, que estava muito linda.
Agora os parabéns seguem pela publicação e colocação on line, de toda a exposição.
obrigado, Miroca! 💜😘🙏🏾
Parabéns pela curadoria e dedicação! A exposição estava maravilhosa!
gracias, Deinha! 🙏🏾🥰
Parabéns pela cirador9a, Dudu! as obras são muito lindas!
merci, Patricia! 💜😘🙏🏾
curadoria
Bah, Dudu: sem seu imenso empenho na realização e sem sua belezura de apresentação, eu não teria a valiosa descoberta desse artista de primorosa e cativante técnica. Com esse acervo virtual de suas obras você o pôs no meu imaginário de forma definitiva. Gracias, meu querido.
Fraga, querido! quanta gentileza a tua… fico muito gratificado, uma vez que esse foi de fato o intuito de todo esse grande movimento: trazer a obra do Fronckowiak pra mais pessoas. muito obrigado! 💜💜💜
Querido Dudu, não tenho palavras para agradecer o empenho, a objetividade e a dedicação em função da homenagem póstuma ao meu amado Roberto!!! Ele merecia muito uma exposição do seu trabalho, um verdadeiro resgate de toda uma vida, dedicada à Arte!!! Onde quer que ele esteja, deve estar faceiro da vida, ao perceber obras dele reunidas num só espaço, com tanta gente apreciando, admirando, conhecendo sua trajetória!!!
Obrigada, obrigada, obrigada, amigo!!!
sim, Kundryka, uma alegria enorme por tudo isso. pra mim, junto ao intenso processo de trabalho, seguiram-se muitas novas experiências, trocas, vivências e o contentamento por, em alguma medida, se reparar essa lacuna, se fazer justiça com o artista, a arte e a pessoa do Roberto, com esse legado ao qual ele dedicou sua vida. obrigado por “viajar” junto comigo. 💓💓💓
Dudu
Obrigado por todo o teu esforço em dignificar o trabalho do meu pai.
A exposição esteve linda !
– Um abraço forte
Marco Fronckowiak
Marco, obrigado! fiquei muito feliz com esse movimento todo e teu pai merecia muito. obrigado a vocês pela interação e apoio. abração! 💜🌸🌿
Dudu! Obrigada por me oportunizar essa viagem emocionante através da tua apresentação, beleza infinita da obra do Roberto, teu talento e dedicação. Parabéns!
Marta querida, eu que agradeço, como sempre, pela tua delicadeza, apreciação e gentileza.
💓🙏🏾🌸🌿